Global Game Jam 2019 — A Experiência Deste Que Vos Fala

Originalmente, este post foi criado em 31 de janeiro de 2019 na plataforma Medium. Para fins de centralizar todos os posts em um único lugar, estou replicando ele neste blog pessoal. Abraços!


Praticamente pouca vivência com desenvolvimento de games, ansiedade de sobra em chegar a um lugar sozinho, sono, aquela agonia faltando uma hora pro prazo acabar e a emoção de ver seu filhote ser apresentado ao mundo. Eu diria que participar da #GlobalGameJam2019 foi uma experiência que eu, Fábio, necessito viver mais, e que outros deveriam fazer o mesmo. E nada mais do que compartilhar o que foram essas três noites e dois dias de evento com aqueles que estão lendo agora. Isto, você mesmo. Segue “nois” neste pequeno texto.


Antes de mais nada, irei resumir brevemente o que é este evento para aqueles que caíram aqui sem saber no que eu participei:

O que é este tal de GLOBAL GAME JAM?

https://globalgamejam.org/

Durante 48 horas, desenvolvedores, músicos, artistas, modeladores, escritores ou quaisquer humanos normais se reúnem em lugares registrados oficialmente pelo evento para despertarem aquele ponto criativo mental ao desenvolver um game. Geralmente a ênfase se dá a criação de jogos eletrônicos, mas existe a liberdade de criar algo não digital, por exemplo algo físico como um jogo de tabuleiro. A criatividade é o seu limite aqui.

E é muito legal apontar que, dentre todas as metas propostas, um dos papeis principais deste evento, como dito diretamente no website da GGJ, é:

“The jam is known for helping foster new friendships, increase confidence and opportunities within the community”

“A Jam é conhecida por ajudar a criar novas amizades, aumentar a confiança e as oportunidades dentro da comunidade” (Tradução livre)

Não é um evento que busca trazer competitividade entre cada um dos grupos. Muito pelo contrário, ele busca trazer um bem-estar em exercitar a criatividade em cada pessoa, e em criar novas conexões. Este hackathon visa em fazer os participantes se sentirem bem e mais confiantes, conhecerem gente nova, e conhecendo a si mesmo.

As vezes pode acabar ocorrendo de sair algum jogo que venha a ser popular, mas isto está longe de ser o foco principal. Digo que isto é uma consequência de tudo que é vivido durante o evento.


Mas como EU fui descobrir a GLOBAL GAME JAM?

Para falar sobre isto, preciso que você, leitor, volte comigo um pouquinho no tempo. Primeiro semestre de 2018, para ser mais exato.

Este ano foi um minúsculo marco para mim, pois foi aqui que eu havia tentado em começar a realizar Game Jams. Meu problema era que eu não sabia nem por onde começar. No final das contas, acabei em me aventurar duas vezes… Mas nada saiu. Necas de pitibiribas. Precisava de organização, foco e um pouquinho de confiança (Não ter dois projetos terminados doeu um pouquinho na alma, confesso).

Avançamos para o final de 2018. Este é um ano que fico sabendo deste evento chamado Global Game Jam. Com toda honestidade do mundo, eu não me recordo como eu soube disto, eu simplesmente comecei a ter conhecimento que este evento era real. Corri atrás de um pouco de informação a respeito. A vontade era de participar, mas acabei por não priorizar. Eu estava, na época, com a minha cabeça atolada com o final da faculdade e com algumas tarefas no meu trabalho. Me faltava um tanto de confiança e energia, apesar da vontade existir.

Até que eu fico sabendo, com o meu amigo Facebook, sobre este evento criado pelo Instituto de Computação da Unicamp e Gamux. Haveria um ponto de encontro relativamente próximo onde eu moro (Cerca de 60km de distância). Resolvi tentar me aventurar mais uma vez. Convidei alguns conhecidos, treinei uma semana antes criando um game para outra Game Jam (Sendo que eu perdi a data de submissão por, exatamente, 1 minuto) e lá fui eu para Campinas.


Agora sim, aqui eu vou contar tudo o que me ocorreu. De verdade.

Como foi a experiência na GLOBAL GAME JAM?

Bastou eu chegar no evento que já comecei a entrar na vibe da brincadeira. Acabei perdendo boa parte de uma palestra inicial, que se tratava da equipe Gamux e o paradeiro de seus integrantes, assim como experiências vividas pelo palestrante (Edit: O palestrante se chama “Alexandre Tolstenko”. O próprio me ajudou a lembrar o nome, por sinal), mas tudo que eu queria naquele momento era descobrir o tema.

E após um certa espera o tema foi liberado. “What Home Means to You?”. A partir disto foi dada a largada para a criação de grupos e o brainstorm.

Acabei, neste momento, achando um grupo parcialmente completo, que estavam em 4 naquele momento. Eu e um outro colega nos juntamos a eles. Estava formado o grupo final. Nos introduzimos, esqueci o nome de todos os integrantes de forma instantânea, e começamos os trabalhos.

Esta primeira etapa se resumiu em mandar na mesa as opiniões sobre “O que lar significa para você”, e tentar juntar as ideias alheias. Neste caso, a nossa equipe acabou até mesmo em ser reunir em uma sala mais vazia para ajudar na hora de pensar em ideias. Ficamos um tempo nesse furação de projeções prototipais e saímos com a nossa (primeira) ideia: Um game 2D, onde se passa em uma residência composta por uma família, e o jogador teria a missão de escolher certas ações que afetariam o futuro, e após o final de um geração você começaria a fazer a mesma coisa com a geração seguinte. Parecia ser algo sólido, porém as ideias continuaram a chegar. Agora tínhamos a vontade de criar este “Walking Simulator” onde você iria andar pela casa coletando itens que te lembrasse de tempos passados. Estava aí o nosso game!

Botamos o pé na massa, a mão na jaca. Não, pera…

Separamos o que cada um iria fazer, e iniciamos o desenvolvimento. Arte cá, história ali, programação acolá, modelagem lá. Estávamos tirando tudo do papel e colocando em ação. Até mesmo uma pizza entrou na roda para nos ajudar a seguir forte. E foi assim até que…

Toda a energia sumiu. Digo, não toda, pois, diferente do que ilustra o GIF acima, tínhamos luz. Mas toda a força vinda das tomadas simplesmente deixou de existir, acabou. Era um daqueles famosos imprevistos que devemos estar preparados. No meu caso, que uso notebook (e que GRAÇAS a uma santidade maior não está com a bateria viciada), estava tudo sob controle, porém fiquei com pena deste meu colega de equipe que, simplesmente, usava um desktop, e não teve a mesma sorte. Progresso perdido. Perder progresso é algo que enche o saco, rapaz.

Todo mundo precisou se virar, não só o nosso grupo. Nos arrumamos em um outro lugar, e continuamos o trabalho. Vieram os energéticos, os restos de refrigerante e o foco durante a madrugada.

Como todo corpo pede uma hora, chegou aquele pit-stop para descansar o espírito. Confesso que me senti o mais dorminhoco do grupo, mas obedecer meu corpo ajudou, com toda a certeza, em seguir adiante nesta maratona. Deixei minha equipe momentaneamente, e fui me deitar com os tratores (Sério, dormir com quem ronca foi um pouco tenso HAHAHA). E assim terminou o primeiro dia.


Acordando no segundo dia de evento, já me deparo com algo inesperado, ou com o famoso imprevisto: A ideia do game foi inteiramente descartada. Ela não estava agradando mais tanto quanto antes. Eu entendo isto, pois fazer algo que não te agrada é igual fazer lição de casa: Pode ser importante e tudo mais, porém ainda é uma lição de casa, você não necessariamente está se divertindo.

Como eu estava dormindo durante toda esta mudança de roteiro, fiquei meio que sem saber o que falar (e eu também estava naquele estado zumbi após acordar, afinal de contas). A nova ideia se tratava de criar um game bem ao estilo WarioWare (Para quem não sabe do que se trata este game, aqui um exemplo), com cada minigame representando algo que você faria em sua casa. A princípio não achei tão boa quanto o protótipo anterior, mas aceitei ver no que iria dar. Ah, e nossa equipe só não estava na estaca zero pelo desenvolvimento deste novo game já ter começado, então não parecia ser algo tão ruim. Então fomos brincar mais um pouco de ser game developer.

Alternando entre programação, pixel-art, criação de música e um yakisoba de almoço que me deixou mais triste do que saciado, continuamos a jornada. Alguns membros iam descansar o corpo e a cabeça, outros continuavam a fuçar em algo para o projeto. Sempre existia alguém fazendo alguma coisa. E o negócio foi crescendo, criando forma, se apresentando ao mundo. Foi neste momento que eu comecei a ficar mais entusiasmado com o resultado final, de saber como ele seria visto pela galera.

O segundo dia estava na reta final, quando isto ocorre: Outro IMPREVISTO. O motoqueiro que foi entregar o lanche meu e do meu colega simplesmente não sabia chegar onde estávamos. Resultado: Tivemos que caminhar 5 minutos até uma rotatória, pois o sistema de cartão não deixa receber pagamento se estiver fora da rota (Cada dia aprendendo coisa nova, né?) para, só depois descobrir, que era só ele ter seguido na primeira entrada da rotatória que ele chegaria no destino. Isto teve algo relacionado com o desenvolvimento do game em si? Não! Mas foi bizarro e, de certa forma, engraçado, e eu achei válido compartilhar este para todos, pois foi vivido durante minha estadia no local. É uma história a mais a ser contada.

Bom, depois desta, o desenvolvimento continuou por mais um pouco antes de ser interrompido por uma rápida jogatina de Jackbox Party (Se você e seus amigos sabem inglês, recomendo MUITO este jogo). Trabalhamos mais um pouco e, então, chegou a hora de nos deitarmos novamente. Era segundo dia terminando oficialmente.


Terceiro dia. Domingo, dia da entrega. É neste dia que todos estão alucinados a terminar o dito cujo game. O ritmo ficou frenético, e todos estavam dando o máximo de si. Até mesmo o almoço foi pulado para não se perder qualquer tempo que pudesse ser valioso.

Eu posso dizer que a melhor parte ocorreu durante este período final de evento, principalmente na última hora antes de se entregar. Tudo que é sentimento circula pelo seu corpo com o dobro de intensidade, pois tudo o que fizemos a esta altura estava culminado naquele exato ponto, bastando acertar certos pontos. E com os minutos se passando, a agonia era maior ainda, pois haviam coisas que precisavam ser acertadas, mas não sabíamos se seria possível corrigir. (Inclusive uma das artes para um minigame foi ficar pronta faltando 30 minutos para o fim da data de entrega, para se ter uma noção!)

E sabe qual a melhor coisa disto? É ver a galera empenhada no máximo, desesperada como você, mas conseguindo terminar tudo a tempo de se mandar no site oficial do evento. Sim, conseguimos! Foi uma correria do cão, mas deu tudo certo. Nós terminamos o nosso jogo!


Todos estavam bem cansados, e agora reunidos em um auditório. Era hora de mostrar os filhos para o mundo, e ver como a galera iria reagir para cada um deles. Showtime.

A nossa equipe foi a primeira a apresentar a todos o que era a nossa criação. Sofremos com um bug demoníaco, onde o game não trocava de minigame ao se perder em um desafio, mas isto faz parte (Todos os jogos haviam algum tipo de bug. Foi a coisa mais normal do mundo). E ver o público reagir de forma positiva foi muito gratificante! Recebemos uma salva de palmas, e nos sentamos para assistir aos outros grupos, cada um seguindo uma linha do que o tema representou para eles.

Diferentes visões para um ponto fixo. Por exemplo, “(_)AR” brincou com a palavra “Lar” e “Mar” e era um game sobre crustáceo que perdeu a sua casa. “Enter the Mansion Now Circus” é uma visual novel sobre uma garota sem casa que encontra um acesso para um circo interdimensional que parece ter tanta história que poderia ser criado um livro sobre o jogo. “Come to Light” é um game visualmente impressionante com o objetivo de levar um bolinha recheada de sentimos ao fim de um poço. “Katazukeru” é um game sobre este hábito criado por Marie Kondo Konmari, onde você arruma suas roupas, checa se elas te trazem boas ou más lembranças, e decide o que fazer com elas. Foram 21 games criados, e todos estão disponíveis aqui.


O evento havia chegado ao final. Todos os grupos haviam apresentado seus filhos, e era possível ver o orgulho em cada um deles. Mas era hora de se arrumar, e de se despedir. Aos poucos o local foi se esvaziando, e sobraram poucos. Eu esperava em um canto pela minha carona, sem mais ninguém do meu lado. Na verdade, alguns morcegos sobrevoavam pelo local, mas só. Não estava ligando, pois estava com aquele orgulho de ter terminado algo, de ser produtivo. Conheci gente nova, criei novos laços. Tudo que eu estava pensando era em conseguir fazer mais disto, e puxar essa reação positiva do público que estivesse, não só jogando, mas assistindo ao game. Com a chegada da minha carona, me despedi do local, e voltei para casa cheio de fome, afinal de contas, não havia comido o dia inteiro.

Valeu a pena demais! E se tem algo que posso dizer para você, que almeja fazer isto: Só faça! Dê a cara e entre na roda. Está sozinho? Vá da mesma forma, você irá se encontrar com alguém. Ansiedade? Pense que você não estará sozinho, provavelmente terão outras pessoas assim também. Medo? Normal, foi o que mais tive, e foras os mais diversos. Deu tudo certo no final das contas.

Está compartilhado com você, leitor, o que foi este final de semana maluco. É uma experiência que recomendo MUITO, e fico feliz de ter participado de uma pela primeira vez.